Exposição “Entre a Madrugada e a Permanência” de Bruno Silva
Exposição de Bruno Silva com curadoria de Estefânia r., inaugura no dia 18 de julho às 17H00.
Entre a Madrugada e a Permanência reúne um conjunto de trabalhos desenvolvidos por Bruno Silva em torno da cidade de Coimbra. Integrando imagens realizadas em momentos distintos e trabalho recente produzido em contexto de residência artística na Casa-Museu Bissaya Barreto, a exposição apresenta-se como um corpo contínuo onde diferentes tempos e diferentes formas de olhar coexistem.
Mais do que construir um retrato da cidade, o trabalho nasce da repetição dos percursos, da deambulação e do regresso aos mesmos lugares, entendendo o território como um lugar de experiência e experimentação, reunindo fragmentos de diferentes tempos que se acumulam numa relação persistente com a cidade.
A fotografia de Bruno Silva assenta numa prática documental centrada no território e na memória, interessando-se pelas relações que se estabelecem com os lugares e pelas transformações que o tempo lhes imprime. Através de um levantamento fotográfico continuado, o seu trabalho reflete igualmente sobre a própria fotografia enquanto meio, explorando as suas potencialidades e, sobretudo, as suas limitações.
📅 Terça — Sábado
🕒 11H00 — 13H00 / 15H00 — 18H00
🎟️ Entrada livre
📍 R. Infantaria 23, Coimbra
Bruno Silva regressa persistentemente a Coimbra. Cidade que acompanha o seu percurso artístico desde os primeiros contactos com a fotografia, permanecendo associada à luz vermelha do quarto escuro onde a sua prática começou a consolidar-se. É neste contexto que se afirma uma linguagem visual própria, profundamente marcada por uma relação contínua com este território.
Contudo, o que se apresenta nesta exposição não corresponde à construção de um retrato da cidade nem à tentativa de a fixar numa identidade reconhecível. Ao contrário de representações que procuram cristalizar Coimbra numa imagem definitiva, Entre a Madrugada e a Permanência propõe antes uma experiência da cidade enquanto espaço vivido: um território de experiência, experimentação e sucessivos regressos, onde o olhar acompanha transformações materiais, temporais e afetivas que excedem qualquer descrição documental.
A exposição reúne imagens produzidas em diferentes momentos do percurso do artista. Fotografias realizadas em 2006 e 2007, nos primeiros anos de contacto com a fotografia, convivem com Coimbra B, corpo de trabalho desenvolvido entre 2018 e 2022, e com experiências mais recentes realizadas em contexto de residência artística. Ao longo deste percurso, a poesia permanece como uma referência silenciosa, acompanhando o modo como o artista se aproxima da cidade e das suas transformações.
Em vez de organizar estas temporalidades segundo uma lógica cronológica, a exposição coloca-as em coexistência, permitindo que se aproximem, se contaminem e se interpelem mutuamente. Poderíamos dizer que diferentes momentos do trabalho se entrelaçam, enriquecidos, por exemplo, pelo livro-objeto Desvio, que evidencia a forma como o acaso e o acidente podem tornar-se matéria de criação.
Esta recusa da linearidade constitui um dos princípios estruturantes da exposição. O trabalho desenvolve-se através de fragmentos: imagens que surgem como aproximações de uma experiência prolongada da cidade. Não existe aqui a ambição de reconstruir uma totalidade nem de produzir uma narrativa unificada. Pelo contrário, assume-se a natureza descontínua da memória e da própria experiência fotográfica, aceitando que o olhar se constrói através de regressos, desvios, repetições e interrupções.
O título sugere precisamente essa condição intermédia. A madrugada surge como figura de um tempo de passagem, um momento entre aquilo que se revela e aquilo que permanece. A permanência, por sua vez, não corresponde à ideia de estabilidade ou fixação, mas à persistência de determinadas formas, atmosferas e relações através da mudança. Entre ambas instala-se um intervalo onde o trabalho de Bruno Silva parece habitar.
A disposição das obras reforça esta condição aberta, quase circular. As imagens relacionam-se por afinidades e proximidades subtis, configurando uma estrutura próxima da constelação. Cada fotografia permanece autónoma, mas encontra-se simultaneamente ligada às restantes através de um sistema de correspondências silenciosas.
A introdução do vídeo e do som prolonga essa lógica. Longe de assumirem uma função narrativa ou ilustrativa, surgem como presenças discretas que expandem a experiência da exposição e prolongam algumas das questões presentes nas fotografias. A paisagem sonora nasce igualmente de uma escuta continuada da cidade, incorporando ruídos, distâncias e atmosferas sonoras que sempre acompanharam o percurso do artista em Coimbra e que, pela primeira vez, passam a integrar o trabalho de forma explícita.
Entre a Madrugada e a Permanência apresenta-se, assim, como um percurso onde diferentes tempos coexistem, tornando-se simultaneamente passado e presente, e onde Coimbra surge menos como tema do que como matéria viva de uma relação continuada. Entre memória e transformação, familiaridade e estranheza, a exposição convida-nos a habitar esse território em permanente mudança, onde algo permanece reconhecível mesmo quando tudo parece ter mudado. Coimbra revela-se, assim, como esse lugar paradoxal para onde se regressa incessantemente, mas de onde também se procura partir; um território que nunca se abandona completamente porque continua a transformar o olhar de quem o percorre.
Estefânia r.